Planta de Vila Boa capital da capitania geral de Goiás

Apresentação/Leitura paleográfica

Elaborada pelo soldado, dragão do Regimento da Cavalaria, Manuel Ribeiro Guimarães de ordem do Governador Luís da Cunha Menezes, governador de Goiás no período de outubro de 1778 até março de 1783, quando foi mandado para Minas Gerais, a fim de assumir o governo daquela capitania.

A planta, “primoroso desenho encomendado pelo governador Cunha Menezes, com o levantamento do que existia na Vila em 1782 e a proposta de ordenação do seu crescimento, caso o crescimento da população assim exigisse. Acompanhado de um Código de Posturas Urbanas, esse foi o primeiro documento iconográfico da capital goiana elaborado com a pretensão de dar uma ordem urbana ou um planejamento ao crescimento – e somente ao crescimento – da história de Goiás. Convém observar que, nesse caso, a intenção de se dar uma ordem à vila, partiu da forma própria com que Cunha Menezes entendia a estrutura de governo e seu relacionamento com a sede do poder administrativo, dentro de um direcionamento oficial pensado como um todo para a colônia dentro do pensamento político do Marquês de Pombal”.1

Além do direcionamento da expansão da vila, “o plano buscava também enquadrar a Praça do Chafariz, colocando-a mais centralizada dentro do tecido urbano e não mais na condição de um dos vértices, como se apresentava anteriormente. Valorizando a nova situação do lugar, foram criados elementos expressivos da modernidade, como uma alameda e um passeio. Dessa forma, o governador intentava transformar esse espaço no mais importante local público da vila”.2

Por meio da planta ficamos a par “da situação de vila Boa, quase cinquenta anos após a sua fundação. Podemos observar um setor mais central, com traçado irregular, que corresponde certamente ao primitivo arraial de mineradores. Na parte urbanizada, ao seu redor, à direita e na parte de baixo do desenho, constata-se a existência de um traçado geométrico regular, com ruas retas de largura constante. O mesmo tipo de traçado se encontra no trecho urbanizado na outra margem do rio, do lado esquerdo do desenho, na qual apenas uma pequena parcela, mais ao alto, não evidencia regularidade. Nesses dois setores, são indicadas apenas algumas áreas edificadas, já consolidadas as práticas de adequado alinhamento, e as demais correspondem ao plano para expansão da área urbanizada decidido em 1778 pelo governador Menezes”.3

Na parte inferior, são representados os uniformes da guarnição militar da vila, com suas respectivas graduações: Cavalaria auxiliar, Dragões pagos, Pedestres, Infantaria Auxiliar, Henriques e Ordenança.

Desenhado a nanquim. Apresenta uma extensa legenda que indica, por meio de números e letras: chácaras, edifícios públicos, igrejas, hospício, câmera, palácio da residência do governo, cadeia, ruas, travessas, becos, etc. Escala gráfica de 140 braças [= 6,6cm]. Inclui rosa dos ventos, decorada em estilo neoclássico. Meridiano de origem: Ilha do Ferro.

Leitura paleográfica:

Planta de Vila Boa Capital da Capitania geral de Goyás, levantada no ano de 1782, pelo Ill.mo e Ex.mo Snr. Luis da Cunha Menezes, Governador, e Capitão General da mesma Cap.ta, e copiada na latitude austal de 16 g.os. e 20 m., e 322 g.os, 30 m. de L. da Ilha do Ferro, na q. demonstra tambem alèm das declaraçoens feitas no Ranvoâ, que a dita Vila [tem] actualmente 554 moradas de cazas, abitadas por 3000 pessoas entrando o n.o da sua Goarnição, e q.l é 4 Comp.as do 1º Regim.to de Cavalaria Auxiliar, hua de Dragoens pagos, outra de Pedrestes pagos, 4 de Enfantaria Auxiliar, hua de Henrriques, e 3 de Ordenanças.

Manoel Ribeiro Guim.es fes.

Na parte inferior, à esquerda possui dois desenhos técnicos com as seguintes legendas: Fachada ou frente principal de Palácio – Fachada de um dos lados da praça principal da V.a que fas frente para Palaçio, e prospecto regular, p.a todas as mais ruas.

A – Igreja Matris.

B – Igreja de N. Snr.a da Boa Morte per.te a Irmand.e dos homens pardos.

C – Igreja de N.Snr.a da Lapa pertecente a Irmand.e dos Mercadores.

D – Igr.a do Rozario per.te a Irm.de dos pret.o

E – Capela de Santa Barbara.

F – Igreja de N. Snr.a do Carmo.

G – Igreja de S. Francisco de Paula.

H – Capela dos Pasos.

I – Palaçio da Rezidencia do Governo.

L – Caza da Fund.am e do Intend.e do mesmo.

M – Caza da Camera, e seus adjaç.tes cadeyas Publicas.

N – Quarteis da tropa da sua guarnição, Armazens Reaes, e Ospi.t

O – Caza da Contadoria dos Rendim.tos Reaes da Capitania.

P – Ospício de Jeruzalém

Q – Açougue publico e cazas para depozito dos mantimentos.

R – Praça do Palacio

S – Praça do Paceyo publico

T – Praça do Ajudante das Ordens

U – Praça de Jozé Moreira

X – Praça Nova

Z – Praça da Lage

Y – Praça detrás da Matris.

aa – Praça de S. Fran.co de Paula.

bb – Praça do Barrozo.

cc – Praça do Rozario.

dd – Fonte nova feita no ano de 1778.

ee – Fonte velha da Cambaúba

ff – Ponte do Marinho.

gg – Cais novo do R. Verm. e construído no ano de 1782.

hh – Ponte do meyo.

ii – Ponte da Cambaúba edificada no ano de 1782, e proporcionada ao volume de agoas a q. vem chegado nas mayores enxentes do R.o

1 – Rua da Fundição

2 – Rua do R.o da Praia

3 – R. nova Luziana

4 – R. nova do Beira

5 – R. do medico

6 – R. direita do Palácio

7 – R. dos Mercad.es

8 – R. da Camb.a

9 – R. do Rosário

10 – R. n.a do Barroz

11 – R. nova do Theatro

12 – R. do Pe. Salva.[dor]

13 – Rua nova de S.ta Barbara

14 – R. do Pintor

15 – Rua nova

16 – R. do Marinho

17 – R. do j. da bola

18 – R. do curtume

19 – Rua ultima

20 – R. do Nicolau

21 – Trav. de Joaq.m Roiz

22 – Travesa Bela

23 – T. detrás da Mat.z

24 – T. do Bento

25 – Travessa do Cap.m Antonio de Souza Pereira

26 – Travessa de entre muros

27 – T. Amena

28 – Trav. Auria

29 – Trav. Argeraina

30 – T. do Colégio

31 – Trav. dos Quart.es

32 – B.[eco] das medicas

33 – Beco do D.or Ignacio

34 – Beco de Manuel Pires Neves

35 – Beco de D. Quiteria

36 – Beco do Sarg.to mor Jozé de Pasos

37 – Beco do Theatro

38 – Chacara de Jozé Moreira

39 – Chac. do Ajud.te das Ordens Jozé [?]

40 – Chacara de Joaq.m Apolinário.

41 – Chacara das Cordeiras

42 – Chac. Peq. do Sarg.mor Lour.ço Ant.o da Neiva

43 – Chac. grd.e [?] com um parreiral q. no ano de 82 produzio 50 Barris de vinho.

44 – Chacara do Muinho

45 – Chac. de João Lourenço Gomes

46 – Chacara da Antonica

47 – Chacara de Antonio Jozé de Arriaga

[circulo na cor preta] – Estrada que segue para Piloéns.

[losango delineado em preto] – Estrada do Ouro Fino

[triângulo delineado em preto] – Estrada que vay para o Arrayal da Anta.

[flecha apontando para baixo delineada em preto] – Rio Vermelho.

Referências:

1 – Disponível em:<http://casaabalcoada.blogspot.com.br/2009_03_01_archive.html>. Acesso em: 15 ago. 2013.

2 – Disponível em:<http://www.anpur.org.br/revista/rbeur/index.php/shcu/article>. Acesso em: 15 ago. 2013.

3 – Disponível em: <http://www.sudoestesp.com.br/file/colecao-imagens-periodo-colonial-goias/674/>. Acesso em: 15 ago. 2013.

4 – FARIA, Maria Dulce de. Catálogo da Coleção Cartográfica e Iconográfica Manuscrita do Arquivo Histórico Ultramarino. Rio de Janeiro: Museu de Astronomia e Ciências Afins, 2011, p. 371-372.

5 – BOAVENTURA, Deusa Maria Rodrigues. Urbanização em Goiás no século XVIII. Tese de Doutorado apresentada na FAU-USP, 2007.

Fonte – Arquivo Histórico Ultramarino

Medidas – 45,7 cm × 51,6 cm em folha 53,5 cm × 59,5 cm

Data – 1782

Localização – AHU_CARTm_008, D. 0877

Anexo ao documento AHU_ACL_CU_008, Cx.35, D.2148.

A Casa da Insua (Portugal) possui uma cópia de época.